O filme que assistimos...

Você encontrará neste espaço comentários e analises de filmes de todas as épocas. Uma excelente oportunidade para aprender além do cinema.

Patricio Miguel Trujillo Ortega


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16 de julho de 2017

Goodbye Solo



Goodbye Solo. Drama. 2008. 91 minutos. Estados Unidos.

Com Souleymané Sy Sayané, Red West, Diana Franco Galindo, Carmen Levya.

Direção de Ramin Bahrani.

Primeiras palavras.

Goodbye Solo é um excelente filme que mexe, na medida certa, com as emoções do espectador: é impossível ficar insensível quando está em jogo a decisão que define o poder que alguém pode ter sobre a vida ou a morte. Goodbye Solo é um filme independente americano que, além de fugir do padrão ‘independente’, cultuado por muitos pelo simples fato de ser ‘independente’, trata de maneira original, profunda e realista o desejo que algumas pessoas têm de morrer versus a impotência frustrante daqueles que, por mais que o tentem, não podem ajudar a aqueles que já desistiram da vida.

Goodbye Solo é um drama, como poucas vezes é visto, que impressiona pelo seu humanismo e seu realismo ao tratar de um tema tão complexo, sem cair na armadilha do moralismo, do politicamente correto, daquela mensagem vaga e previsível para ganhar a simpatia do público.

O suicídio é um tema comum nas manchetes sensacionalistas dos jornais que provoca na atualidade, graças à influência das redes sociais, uma onda de comentários vazios, grotescos, sendo que a maioria deles se baseiam em ideias religiosas, preconceitos moralistas, sem esquecer-se daqueles que se aproveitam dessa difícil decisão das pessoas para fins políticos e egoístas de outra índole.
Goodbye Solo
O suicídio não é um tema fácil de tratar na sociedade ocidental que simplesmente o condena, mas o filme de Ramin Bahrani, Goodbye Solo, é uma proposta original, consistente e tocante sobre a decisão de morrer e não permitir a interferência de ninguém sobre essa decisão. Com um roteiro original e sem nenhum tipo de puritanismo, este filme nos surpreende com uma história comovedora e misteriosa. Embora o ritmo do filme às vezes peque por um pouco de lentidão, o espectador se vê seduzido por uma história na qual o sentido da vida adquire um novo significado, tanto quanto o da morte.

A história e as suas personagens.

Goodbye Solo começa com a história já em andamento. Sem nenhum tipo de introdução, nos primeiros segundos, os dois protagonistas principais terminam um diálogo que não se sabe como se iniciou, mas que logo o espectador entende do que se trata. Além disso, nessa primeira sequência do filme, já estão definidos os traços, as características de William e Solo que vão criar um elo paradoxo que norteará a dinâmica do filme.
Goodbye Solo: William
William (Red West) é um homem que está entre os sessenta e setenta anos de idade. Ele está no taxi de Solo (Souléymane Sy Savané) e antes de descer do carro, pede ao taxista que confirme se aceita a proposta que ele fez: dentro de duas semanas o levará à montanha Blowing Rock em uma corrida só de ida. A região é muita afastada e o pedido é inaudito, por isso Solo percebe que alguma coisa séria está acontecendo com o passageiro, até esse momento um ser humano totalmente desconhecido para o taxista, e mais ainda quando ele oferece mil dólares pela viagem e, para garantir o serviço na data combinada, paga-lhe cem dólares adiantados.
Goodbye Solo: William e Solo
Solo surpreende-se com a proposta feita por William, e embora não tenham conversado nada específico com ele, sabe que o passageiro carrega um fardo pesado na sua vida e que a intenção dele é de se suicidar. Solo fica preocupado e, entre uma e outra palavra, evita assumir o compromisso da corrida e tenta desviar à atenção para outro lugar, mas frente à insistência de William, não só que aceita a proposta – uma aceitação nada prazerosa e que ele quer aproveitar para fazer todo o possível que William desista da sua ideia no decorrer dos dias – mas também se oferece para ser seu taxista desse momento em diante. Pede-lhe que na próxima vez que estiver precisando de um taxi, o chame.

Solo é um imigrante senegalês que está radicado numa cidade do interior de Carolina do Norte, Winston-Salem, nos Estados Unidos. Fala inglês, francês e muitos dialetos africanos. (Esse domínio linguístico é uma metáfora da sua personalidade: um homem extremamente comunicativo que conversa com todas as pessoas, e só por esse fato – o ato de conversar – já as considera seus amigos.) Ele é um taxista que não quer ser taxista para o resto da sua vida, motivo pelo qual trabalha para uma empresa de taxis e faz questão de não consertar um taxi velho que comprou e que não funciona e que está jogado no pátio da casa onde mora com a sua esposa.

O sonho profissional de Solo é ser comissário de bordo, só que esse não é o desejo de Quiera, sua atual esposa. Ela já tem uma filha, Alex, com quem Solo tem um ótimo relacionamento, e está gravida, esperando um filho de Solo, razão pela qual não compartilha da ideia de que seu esposo fique muito tempo ausente de casa. Quiera, com teimosia e praticidade, prefere que seu esposo esteja perto dela, trabalhando como taxista.

Goodbye Solo: Os primos de Quiera consertam o taxi velho de Solo
Solo é uma pessoa muito comunicativa, sociável e apaixonada pela vida. Ele trabalha duro e não reclama do trabalho porque sabe que seu esforço vale a pena para sustentar tanto a sua família nos Estados Unidos quanto aos que ficaram na África. Ele é essencialmente uma pessoa otimista que acredita nas belezas singulares da vida.

Já William é um homem de poucas palavras. Não gosta de falar nada dele e faz questão de não se comunicar e não quer ser incomodado por nada nem ninguém. Sobre o fardo que carrega, há um mistério que permanecerá até o fim. Solo chega a descobrir alguns detalhes particulares sobre ele, mas não o suficiente para poder saber quem é William: um indivíduo que não expressa nenhuma emoção e que se comporta com uma praticidade assustadora.

Um drama de luta entre o otimismo e o pessimismo.

Uma boa parte do filme acontece dentro do taxi de Solo. A maior parte dos diálogos corresponde ao esforço de Solo, que vai contando os dias que falta para a chegada da data escolhida por William para morrer, por fazer que seu novo amigo mude de ideia. Ele o oferece uma amizade que William não quer e embora seja rejeitada constantemente essa amizade, Solo não desiste da vida.

Goodbye Solo pode ser interpretado de diferentes maneiras, segundo a visão de cada espectador; no entanto, o eixo do filme está no relacionamento entre William e Solo a visão que cada um deles tem do mundo.
Goodbye Solo: A rotina final de William de ir ao cinema
Por um lado, Solo é uma pessoa otimista. Ele é apaixonado pela vida, pelos seus sonhos, pelas pessoas que conhece e, ao mesmo tempo, é um intrometido que, em outras circunstâncias, poderia ser considerado um autêntico chato. É aquela pessoa que insiste em conversar, em querer saber algo mais, a pesar de que seu interlocutor não quer nada com ele. Alguém poderia falar por aí, de maneira simplista: “Se William quer morrer, quem sou eu para impedir que não morra? Não é meu problema. Se ele quer morrer, que mora. Depois de tudo, é a vida do William e não a minha”. Esse raciocínio, nada artificial e mais comum do que nos imaginamos nas novas gerações que crescem bombardeadas por uma indiferença digital egoísta e imediatista, está longe de ser o modo de pensar de Solo. Para ele a vida é rica: os amigos, a família, os sonhos; não riqueza da vida não é só um sistema econômico. O otimismo de Solo vai além das necessidades básicas: seu otimismo se deriva da necessidade se sentir satisfeito consigo mesmo e nos problemas, ele não encontra dificuldade: ele acha tempo e espaço para acreditar que as situações podem melhorar. Isso ele demonstra na sua vida pessoal, no seu trabalho, no seu interesse pelas pessoas. Um interesse gratuito, porque não está esperando uma recompensa material.
Goodbye Solo: Alex e Solo
No outro extremo encontra-se William. Ele não quer nada do que Solo lhe oferece. Só quer duas coisas: continuar com a sua rotina, como ir algumas noites sempre ao mesmo cinema, e morrer como ele quer. William não quer saber nada da amizade de Solo e rejeita os conselhos que o senegalês insiste em dá-los. William é uma pessoa extremamente fechada e ninguém sabe nada dele. Até o final do filme, o espectador só saberá pequenos detalhes que não ajudam em nada a entender qual é o problema que ele tem. É impossível saber por que ele quer se suicidar.

Solo descobre que William tem um neto que não sabe da existência de seu avô. Mas esse descobrimento não leva a nenhuma das soluções que Solo gostaria de encontrar para que seu novo amigo não morra. Mais isso não é possível já que William não quer que ninguém se intrometa na sua vida e na sua morte.

Nestes dois extremos, Goodbye Solo narra, na verdade, a luta altruísta de um homem otimista que se preocupa de maneira admirável pelo destino de um estranho. Solo é a antítese da sociedade moderna que, envolvida no consumismo, no imediatismo, no egoísmo de querer mais e mais, não está “nem aí” pelo destino dos desconhecidos, aqueles que passam ao nosso lado todos os dias carregando dores e frustrações, pois vivemos em uma era na que o “eu” é o mais importante de tudo.

Goodbye Solo: William segue seu caminho final sozinho enquanto Solo e Alex se distanciam
Solo força uma amizade, que é recusada constantemente por William, porque não entende como um velho pode viver sozinho, sem que ninguém queira saber nada dele. Numa das corridas de taxi, bem no começo do filme, ele diz a William que no seu país os mais novos tomam conta dos mais velhos. Que se um velho não tem como comer porque já não tem dentes, os parentes que tomam conta dele o ajudam a mastigar. Uma história de otimismo que contrasta com o desânimo total de William pela vida que, pouco a pouco desfaz das suas coisas. Vende seu apartamento, fecha a sua conta bancária e está determinado a morrer na data marcada. No entanto, Solo consegue que William se solte um pouco quando ele sai da casa de Quiera e “se convida” a morar uns dias no motel onde William está morando depois de ter vendido seu apartamento. Nesse meio tempo, Solo descobre o segredo de por que William vai com frequência ao cinema, também fica sabendo de alguns dos gostos pessoais dele (já foi fanático de motocicletas, gosta de rock antigo y de country) e descobre que já foi casado e que a sua esposa o abandonou há mais de 30 anos.
Goodbye Solo: William e Solo: a antítese entre o otimismo e a desilusão
Mas todos esses descobrimentos não ajudam em nada para os objetivos de Solo. William se fecha com um trinco impenetrável para que ninguém possa abrir a sua porta.

Essa maneira de encarar a história torna o filme original e destrói o conceito do previsível das histórias que envolvem fortes emoções. O espectador descobre, com um pouco de amargura de tristeza, que Solo não pode fazer nada com seu otimismo quando uma pessoa se deixa tomar pela tristeza e pelo desânimo em geral.

Cena especial.

Apesar de que uma boa parte do filme transcorre no taxi, achamos que duas cenas marcantes do filme acontecem em outros ambientes. A primeira é quando Solo leva para uma farmácia as pastilhas que William toma. Essa cena é a personificação das características do taxista: um zelo extremo pelos amigos. Já que ele não consegue que William fale de seus problemas, quando descobre que seu amigo toma um medicamento, embora nunca se empregue a palavra “suicídio”, ele decide levar esses medicamentos para que sejam analisados e descobrir qual é o problema que William tem. Devido a que não sabe se o problema de William é físico o emocional, ele utiliza seus próprios meios para tentar descobrir o que seu amigo faz questão de não falar. Essa cena é a personificação de Solo: um indivíduo que se intromete na vida dos outros pelo bem deles, já que ele não procura nada para ele mesmo.

Goodbye Solo: Solo e Alex em Blowing Rock
A outra cena é a última do filme. Solo não consegue convencer a William de desistir e o leva para Blowing Rock, a montanha onde a neve sobe do chão para o céu, segundo os que já foram aí. Solo leva a Alex, a filha de Quiera, uma menina de uns doze anos, tão alegre e entusiasta quanto ele mesmo, na viagem. Ele precisa da companhia da única pessoa que nesse momento pode ser seu apoio para não perder seu entusiasmo da vida. Durante o trajeto no taxi até as montanhas, Solo permanece em silêncio, pela primeira vez, e depois que William vai embora, ele sobe com Alex ao topo da montanha e ele joga o galho de uma árvore para ver como em lugar cair, ele sobe. Alex não sabe nada a história de William, e com esse gesto, imortalizado no cartaz do filme, Solo não só está se despedindo de William, mas está desfrutando com Alex de um fenómeno da natureza singular e maravilhoso que representa a própria vida.

Texto original de Patricio M. Trujillo O.

Está proibida a reprodução total o parcial do texto sem a autorização escrita do autor do texto.

Segundo o IMDB, Goodbye Solo ganhou quatro prêmios: African-American Film Critics Association, AAFCA, 2009; Central Ohio Film Critics Association, 2010; National Board of Review, USA, 2009; Venice Film Festival, 2008 e obteve sete nominações.

25 de setembro de 2016

Bal - Um Doce Olhar



Bal – Um Doce Olhar. 2010. Turquia. 103 minutos. Drama.

Com Erdal Besikçioglu, Alev Uçarer.

Direção de Semih Kaplanoglu.

Bal é um filme turco distribuído no Brasil sob o título Um Doce Olhar e provoca um conflito terrível no espectador. Se bem é verdade que por um lado teve sucesso de crítica no Festival de Berlim de 2010, onde ganhou o prêmio Urso de Ouro, por outro lado, se trata de um filme entediante, embora saibamos que é uma obra de arte de qualidade.

Os 103 minutos que dura o filme parecem não terminar nunca e a vontade é de desistir no meio do caminho, só que aí, então, se levantam algumas questões que nos motivam a ir até o fim.

Em primeiro lugar, Bal – Um Doce Olhar é um filme sensível e profundo que se expressa por meio do silêncio e da fotografia no lugar das palavras e da ação. Em segundo lugar a lentidão é proposital e acertada, porque se trata de uma história de uma criança que perde os sonhos e a inocência de “ser criança”; por tanto, ela precisa ter seu próprio tempo e ritmo para assimilar sua nova realidade e se enfrentar com as decepções. E o ritmo da criança não é o mesmo do adulto.

A história. -

Vamos resumir a história na ordem cronológica dos fatos, embora não seja narrada dessa forma.
Bal - Um Doce Olhar: Yusuf e seu pai
Yusuf é um menino pequeno, quiçá tenha seis anos de idade, que mora em uma região rural montanhosa da Turquia com seus pais. Ele tem uma relação intensa e de cumplicidade com seu pai. Ambos se comunicam por meio de poucas palavras, gestos e atitudes que demonstram que o relacionamento pai-filho é ótimo. Os laços entre ambos são estreitos. No entanto não se pode dizer o mesmo com relação a sua mãe, que é uma mulher que se expressa pouco e tem dificuldade em demonstrar a sua afetividade com seu filho, com quem não tem nenhum tipo de conflito. Simplesmente eles ainda não encontraram a maneira de se comunicar da melhor forma possível.
Bal - Um Doce Olhar: Yusuf e seu pai: laços estreitos
Yakup, o pai de Yusuf, é um apicultor que se vê obrigado a viajar, junto com outros apicultores, longe do lar porque está buscando os melhores lugares para a produção de mel, pois são cada vez mais escassos na região onde eles moram. Ele inicia a sua viagem e Yusuf fica em casa com sua mãe. A vida do garoto, durante a ausência do pai, transcorre entre a casa e a escola, e quanto mais seu pai demora-se em voltar, esse mundo seguro do menino se torna sombrio, angustiante, de pesadelos e de solidão; e mais ainda, ao saber que seu pai está desaparecido.

O conflito. -

O destino do pai de Yusuf já está definido desde o começo, e o espectador sabe disso muito antes do menino. O filme começa com uma sequência lenta de uma paisagem bucólica, quase contemplativa, acompanhando cada gesto que realiza Yakup, até o momento em que fica em uma situação difícil e muito perigosa.
Bal - Um Doce Olhar: Yakup
Em seguida tudo muda. O filme adota um ritmo meditativo e vai mostrando a rotina da família de Yusuf, revelando principalmente que o menino se comunica melhor com seu pai e, dessa forma, com o mundo que há ao seu redor, até o momento da partida de Yakup. O filme continua nesse mesmo ritmo meditativo, assim como a rotina da família; no entanto, Yusuf, um menino tímido, passa a viver em um mundo tenso, de solidão, porque não há mais com quem se comunicar. A mãe não encontra o jeito de criar o laço afetivo com o garoto que, por momentos, conforme seu pai se demora em retornar, pressente a tragédia e não sabe como se expressar ou, em outras palavras, como encontrar um consolo.
Bal - Um Doce Olhar: Yusuf
Yusuf se comunica muito bem com seu pai, e uma das primeiras características que vemos no relacionamento pai-filho é a leitura. Em casa, o menino lê para o pai com bastante segurança, para quem esta apreendendo a ler, o que está escrito em uma folha de calendário: a data e as informações do dia. Porém, na escola, a criança apresenta uma dificuldade muito grande para ler, chegando apenas a gaguejar.

A técnica. -

Bal – Um Doce Olhar, apesar de ser bastante parado como explicamos no começo do texto, é um filme bem feito. Em primeiro lugar, o trabalho fotográfico de Baris Özbiçer é excelente. Ele usa acertadamente a luz nos mais diversos ambientes: na floresta, na escola e na casa da família de Yusuf.
Bal - Um Doce Olhar
Quase não há trilha sonora, e não faz falta, pois os muitos momentos de silêncio e os barulhos naturais dos ambientes onde transcorrem as cenas ajudam a criar os diversos climas da história. Como exemplo, podemos citar o vento que bate nas árvores, a água da chuva nos telhados ou, mais interessante ainda, os passos de Yusuf na lama, a caminho da escola.

Bal - Um Doce Olhar: Yusuf a caminho a escola
Também há que destacar os movimentos da câmera ou, melhor dito, a falta do movimento dela. Esse recurso cumpre a função de mostrar para o espectador o cenário real, o que ajuda a vivenciar o que as personagens estão vivendo nesse exato momento, especificamente: a espera da chegada de Yakup ou o fim da esperança, como acontece com o plano longo quando Yusuf fica olhando a lua no reflexo da água.

Cenas importantes. -

Escolhemos duas cenas para destacar os conflitos que perturbam a criança.

A primeira é um símbolo do processo da maturidade forçada de Yusuf: começa com a segurança que vive com seu pai, passa pelo medo da perda e termina com a aceitação da nova realidade. A cena, na verdade, está composta por três momentos. No primeiro: Yusuf não gosta de leite e quando a sua mãe lhe da um copo, é Yakup quem toma o leite sem que a sua esposa perceba o engano. No segundo, com o pai ausente e demorando em voltar, no lugar de beber o leite, Yusuf joga-o fora. Só mais tarde, quando a nova realidade é inevitável, o menino aceita o copo de leite sem nenhum tipo de reclamação.
Bal - Um Doce Olhar
A segunda cena que há que destacar, é quando o professor decide “premiar” a Yusuf pela leitura com o último broche que sobrava na turma. Na escola, como foi dito anteriormente, o menino gagueja e isso provoca as risadas de sues colegas. Ele tenta de todas as formas ler, mas não consegue, até que no final, quando todos os broches já foram distribuídos ao longo das aulas e ele já não tem esperanças de ganhar um, o professor lhe da o último, o que sobra, apesar da dificuldade do menino para ler apenas o título do conto. Essa cena é interessante porque durante o filme o professor transmite a imagem de ser uma pessoa inexpressiva e insensível. Parece que faz um trabalho mecânico, cansativo e que não sabe o que acontece com seus alunos; no entanto, ao dar o broche a Yusuf, não só demonstra sua sensibilidade, mas que ele sabe o que está acontecendo ao seu redor.
Bal - Um Doce Olhar: Yusuf na escola
Reflexões adicionais. -

Agora vamos sair um pouco da história do filme e fazer uma reflexão adicional sobre alguns elementos que o compõem. Para isso, temos que lembrar que estamos frente a uma produção turca, então, estamos falando de uma manifestação cultural que nos é estranha, por mais globalizados que pensemos ser.
Bal - Um Doce Olhar
Então, algo que nos chama à atenção é a falta de perspectiva para os homens e mulheres da região onde o filme está ambientado. Yakup e outros homens estão obrigados a ir cada vez mais longe para conseguir o mel. E alguns, como é o caso do pai de Yasuf, não voltarão pelos perigos que enfrentam. Esses homens e mulheres não conhecem novas técnicas para produzir mel e a sobrevivência deles está em risco.

Outro aspecto que chama a atenção é o tema do comportamento das crianças na escola. Não podemos julgar com os nossos valores o que vemos no filme, mas é chocante ver um grupo de crianças inexpressivas na sala de aula. Um dia, quando o professor está revisando os deveres de casa, Yusuf, que não fez o seu dever, troca seu caderno pelo do colega, sem o consentimento dele, segundos antes do professor chegar à carteira de ambos. E o menino prejudicado, fica impassível, sem se defender ou protestar pela injustiça e sofre o castigo. Parece que os meninos, em geral, têm que ter muito cuidado com as palavras, com o que podem dizer ou não.
Bal - Um Doce Olhar: Yusuf na escola
Palavras finais. -

Bal – Um Doce Olhar é um filme que vale a pena assistir, embora não seja fácil pela forma em que os recursos técnicos, de boa qualidade como falamos antes, são utilizados. Não estamos frente a um filme para entreter, e sim para refletir, pausadamente. As primeiras impressões do filme não tem fundamento. Como espectadores, temos que nos comportar como se comporta a câmera durante o filme: com calma, olhando cada detalhe, vivenciando cada momento, para tentar entender o que acontece na intimidade do ser humano. E quem já assistiu ao filme e está lendo este texto, pode lembrar a cena na que Yusuf, como se estivesse se auto castigando pelo que fez ao colega na escola, abre mão do barco de brinquedo feito pelo seu pai.

Segundo informações recolhidas na Internet, Bal – Um Doce Olhar é a terceira parte de uma trilogia iniciada em 2007 com o filme Ymurta, e que continuou com Sut (2008) que conta as diversas etapas da vida de Yusuf; mas, em qualquer caso, não é necessário assistir os filme anteriores para compreender esse.

Uma comentário ao título em português.-

Não queríamos terminar o texto sem mencionar a péssima tradução do título original para o português. Novamente, segundo Internet, Bal significa “mel”, e esse seria o título original do filme em português. O título escolhido, Um Doce Olhar, é tendencioso e engana ao espectador porque não é uma história doce e o olhar do menino é de tristeza e solidão.

Texto original de Patricio Miguel Trujillo Ortega.

Está proibida a reprodução total o parcial do texto sem a autorização escrita do autor.

19 de julho de 2016

The Decoy Bride (A noiva isca)



The Decoy Bride (A noiva isca). 2011. Reino Unido. Comédia. 89 minutos.

Com Kelly MacDonald, David Tennant, Alice Eve.

Direção de Sheree Folkson

Mais uma comédia romântica?

The Decoy Bride (A noiva isca) é uma comédia romântica e a primeira impressão que temos desse filme é que parece ser mais uma das tantas comédias românticas que chegam ao mercado, embora seu humor britânico seja distante do hollywoodiano; mas é uma impressão imprecisa.

A segunda impressão, então, é que o filme não consegue fugir totalmente dos clichês e de certos estereótipos que caracterizam as comédias românticas previsíveis quase na sua totalidade, ainda que essa nos surpreenda com alguns elementos culturais com os quais não estamos acostumados. E essa impressão, como a anterior, também é imprecisa.
The Decoy Bride
A terceira impressão é que, apesar da soma inevitável da primeira com a segunda impressão, The Decoy Bride (A noiva isca) é um filme muito agradável de assistir graças a sua história original, a suas personagens únicas com um humor singular, às vezes sutil e outras, direto. Além disso, a paisagem exótica com seus nativos, seus costumes e a possibilidade de descobrir novas perspectivas de vida.
Os habitantes da Ilha Hegg nas Ilhas Hébridas

Hegg, a ilha mais feia das Ilhas Hébridas, ao norte da Escócia.

Katie Nic Aoidh, interpretada por Kelly MacDonald, volta ao seu lar desiludida do amor. Ao se aproximar a sua terra natal, ela joga ao mar uma aliança que simboliza a sua última esperança frustrada de se casar.
Katie retorno a casa de sua mãe
Depois de ter ficado algum tempo longe de seu lar, ela volta para a ilha Hegg, uma das ilhas mais remotas das Ilhas Hébridas, ao norte da Escócia. Segunda ela, a ilha mais feia da região onde não moram mais que setenta e cinco pessoas e todos os menores de cinquenta anos – com os quais ela poderia se casar – já estão casados. Katie volta resignada com a sua situação e tenta se acostumar ao ritmo pacato da região no hotel de sua mãe.

A maior tristeza no momento do retorno de Katie é que volta justo a tempo de assistir ao casamento do último solteiro da ilha com quem ela poderia ter se casado: seu ex-namorado. Tanto é que, assim que chega ao casamento, uma das convidadas, uma mulher velha, lhe diz: “Você chegou demasiado tarde para se casar com ele”. E praticamente a noiva fala no ouvido de Katie a mesma frase.
O Ex e Katie no casamento dele
Ao mesmo tempo, longe da ilha Hegg, no meio da fama e de ter a vida sempre exposta pela mídia, Lara Tyler, uma atriz muito famosa, não consegue casar-se com James Niel porque os paparazzi estragam o desejo da atriz, que é ter um casamento privado e íntimo. Os noivos tentam enganar aos paparazzi utilizando noivas falsas como iscas para poder ter a sua celebração como eles querem, mas há um paparazzi, no meio de todos os outros, que sabe como arruinar os planos dos noivos, e não se importa com os sentimentos deles. “Você está arruinando a minha vida”, diz Lara ao fotógrafo. “Já arruinei a vida de outros e a sua vida não tem nada de especial”, responde o paparazzi.
O paparazzi: "... a sua vida não tem nada de especial"
A equipe de assessores dos noivos, liderada por Steve, encontra uma solução para realizar o casamento no maior dos sigilos: aluga um castelo abandonado na Ilha Hegg para realizar a cerimônia e, para evitar que os habitantes da ilha atrapalhem os planos, assim como a mídia, anunciam que o evento no castelo é uma conferência de vendedores.
O castelo
Só que nem Lara, nem James e nem a sua equipe de assessores poderiam se imaginar que a chegada deles à Ilha Hegg provocaria tanta comoção, pois os habitantes, ao saberem que o castelo foi alugado, aproveitam a oportunidade para poder ganhar um dinheiro extra com o evento, como já tinha acontecido uma vez há muito tempo.

As personagens.-

Cinco são as personagens que merecem um destaque especial: Katie, Lara, James, Steve e a mãe de Katie.

Katie tem trinta e dois anos de idade e volta a sua terra natal porque acredita que não há outra opção para ela na vida. Seu sonho de se casar terminou e ela está disposta a viver junto com a sua mãe, embora no fundo ainda deseja encontrar algo a mais na sua vida. Ela pensa que esse “algo a mais” é o “amor” ou, em outras palavras, “o casamento”, sem perceber que a sua vida pode ir também por outros caminhos que a deixem satisfeita.
Katie
Para entender bem essa preocupação com a necessidade de “se casar”, há que compreender que os habitantes moram em uma ilha muito remota e, apesar de estar em contato com o mundo por meio da tecnologia, seus costumes e suas aspirações são diferentes de outros lugares. É como se esse fosse o único destino das suas vidas. Quem não foi embora, é porque ou não teve a oportunidade de fazê-lo ou se conformou com o jeito de ser dos habitantes da ilha, quem são felizes vivendo em seu próprio mundo.

Ao chegar à ilha, Katie interage com a população local e tenta aceitar com humor a sua situação de “solteira”, o que é comentado pela vizinhança; mas, no fundo ela não está satisfeita com estar solteira e compartilha as suas frustrações com a sua mãe, quem lhe diz: “Há alguém para você em algum lugar”. Mas, Katie tem a resposta que demonstra o que ela sente de verdade: “Eu sou com a kriptonita para os homens. Uma kriptonita com celulites”.
Katie e James
A vida de Katie nunca foi emocionante e nunca conseguiu realizar seus sonhos. Talvez ela tenha pouca autoestima e tomou as decisões erradas. Mas ela vê essa situação com humor. Quando conversa sobre seu antigo trabalho, antes de voltar para à ilha, alguém lhe diz: “Pensei que você tinha dito que aqui (na ilha) nunca acontecia nada”. Katie responde: “Que não aconteça nada é o mais emocionante da minha vida”.

Katie volta trabalhar na loja de Laird, a pessoa mais importante da ilha, quem lhe propõe um trabalho especial: que ela escreva uma guia turística sobre a ilha Hegg. E essa proposta é o pontapé inicial para que ela possa encontrar outro sentido a sua vida.
The Decoy Bride
Lara Tyler, segundo seu noivo, é uma mulher perfeita e segundo uma pesquisa feita com 10.000 homens, 9.800 queriam casar-se com ela. Ela é uma atriz americana muito famosa e seu desejo é que a imprensa não se meta em sua vida. Quer uma vida de paz e tranquilidade e seu sonho é ter um casamento íntimo e privado com seu noivo. Tudo o que sabemos dela, é pelo que contam as outras pessoas que estão ao seu lado. No relacionamento que ela tem com James Niel, ela é quem comanda as decisões, os gostos, e tudo feito de uma forma sutil.
Lara Tyler
James Niel, o noivo, é um escritor que escreveu só um livro: A esposa do ornitólogo e ainda espera a “inspiração” para poder escrever seu segundo livro, pois Lara pensa que ele será o grande escritor do século XXI. O problema é que se descobre que James, como escritor, é uma fraude, pois seu livro, que na teoria foi inspirado na ilha Hegg, não tem nada a ver com essa ilha, o que significa que ele escreveu uma história de um lugar do qual não sabe nada. Durante o filme, há vários momentos nos quais o humor gira em torno deste assunto, como quando Katie, sem saber que está conversando com o James, fala que eles (os habitantes da ilha) achavam que esse livro melhoraria depois da página 600 e se oferece para ajudar a levar o livro, de tão pesado que ele é. De todas formas, James é uma pessoa que ainda não descobriu a sua própria identidade, pois atua sob as ideias de Lara.

James e Katie
Steve, o assessor do casal, é talvez a personagem mais engraçada do filme, pois suas palavras são sarcásticas, irónicas e põem em evidência o excesso do “ego” de Lara y James. Em outras palavras, Steve é a “voz” que mostra a atitude exagerada em torno dos “famosos”.
Steve
A mãe de Katie tem uma função muito interessante no filme, pois ele é o oposto da sua filha e dos demais habitantes da ilha. Ela está doente, sabe que vai morrer em breve e sempre desejou sair da ilha, conhecer o mundo e ser jogada em um vulcão. No entanto, as circunstâncias da vida não lhe permitiram realizar esse sonho; mas, com o retorno de sua filha e a chegada de Lara e James, uma nova perspectiva se apresenta frente a ela.

A noiva isca e o humor.-

Como já foi dito no começo do texto, A noiva isca (The Decoy Bride) é uma comédia romântica que não foge totalmente do humor estereotipado desse tipo de filmes; porém, uma boa dose de seu humor parte das características da população local e outra, da própria confusão criada com a chegada de Katie, Lara e James.
A noiva isca
Quando Katie recebe a proposta que lhe faz Laird de fazer uma guia turística da ilha Hegg, ela percorre a ilha e descreve as caraterísticas geográficas e da sua população. Por exemplo, ficamos sabendo que eles consideram a ilha tão insignificante, que nem sequer os Vikings prestaram-lhe atenção quando invadiram a região.  O valor da diária do hotel da mãe de Katie é de 16 libras esterlinas; mas, quando ficam sabendo do evento dos vendedores, a mãe só troca os números e o valor passa a ser de 61 libras e pede a sua filha que se alguém perguntasse sobre o hotel, que dissesse que tem duas estrelas, mas que estão perdidas.
Katie, o hotel e a Ilha Hegg
Percebe-se também a rivalidade dos habitantes das Ilhas Hébridas com os das Ilhas Órcades ou Órcadas (que ficam ao sul das Hébridas) com uma só frase dita em todo filme. Quando chegam os visitantes, uma mulher fala para Katie: “nada de se jogar nos braços dos visitantes; não queremos que pensem que estão nas Órcades”.

A chegada dos paparazzi à ilha provoca a confusão que é o tema central do filme. Lara se esconde para não ser descoberta pelos fotógrafos e, como ninguém sabe onde ela está, Steve tem que improvisar para desorientar aos fotógrafos: ele contrata Katie, por 5.000 libras esterlinas, como “noiva isca” para fingir que é Lara. “Não me pareço em nada com Lara”, diz Katie. “Ela (Lara) tampouco se parece com ela até que elas (as esteticistas) a arrumam”.
O casamento
Como Lara é americana, Katie tem que improvisar o sotaque americano. Um humor linguístico simples, mas efetivo.

Quando Lara e James chegam à ilha, James fala: “Não tenho nem ideia de onde etamos, mas isto é perfeito”. Só depois é que ele descobre que está na Ilha Hegg, na qual “ele” se inspirou para escrever seu livro, o que provoca a ironia constante de Steve.

Cenas claves.-

Poderíamos citar como uma cena clave o momento em que Katie quase se afoga, pois quando isso acontece ela acha que esse foi o momento mais emocionante de sua vida. Portanto, é uma forma de conhecer até que ponto a vida dela é entediante; mas a cena que muda o destino da história é a mais romântica que há no filme e nela não participam nem Katie, nem Lara.

James está perdido na ilha e ele está usando uma roupa que era do pai de Katie. A roupa é esquisita e o pai da Katie usava-a quando tocava a gaita escocesa. James vê uma casa e se aproxima para pedir ajuda. Logo descobre que o casal de velhos que ali moram é surdo e quando eles o vêm com a roupa do gaiteiro, se emocionam, pedem para ele autografar o disco do pai de Katie e para tocar a gaita. Imediatamente, o casal começa a dançar como se estivessem ouvindo a música, e James percebe a paixão que une aos dois velhos e mexe definitivamente na forma em que ele se encara a se mesmo e aos outros. É uma cena delicada e belíssima, construída de um jeito simples, mas eficaz.

Palavras finais.-

A Noiva Isca é uma aventura que às vezes se transforma em uma desventura, mas tudo acabada dando certo. É um filme dinâmico e como pano de fundo tem uma paisagem espetacular, que se destaca como se fosse mais uma personagem, com identidade própria, graças ao bom trabalho fotográfico e ao uso dos mais variados planos fotográficos que ajudam a destacar à Ilha Hegg.

E para terminar, podemos resumir o filme nas palavras desafiadoras da mãe da Katie para sua filha: “Uma vida gasta em erros é muito melhor que uma sem ter feito nada”.

The Decoy Bride (A noiva isca) é um filme que vale a pena de ver, ainda para aqueles que não gostam de comédias românticas.
The Decoy Bride
Texto original de Patricio M. Trujillo O.

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